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quinta-feira, dezembro 02, 2010

só bem querer...

Eu queria poder sentar e escrever um final feliz, simplesmente contornar todos estes parágrafos com nuvens e trazer o aroma das tão delicadas cerejeiras para dentro dos seus pensamentos... Queria poder sim reescrever as palavras difíceis e, no lugar, colocar suas palavras-inventadas... Sentar na beira da janela, esperando a tua estrela passar corrida e fazer um desejo secreto, relevado no beijo que te dou eufórica... 

Ah, queria também escrever teu nome em todas estas músicas tão lindas que fazem sucesso, para que todos entendessem uma partezinha do meu sentimento por ti... Por fim eu queria que ninguém tentasse entender ou ler as entrelinhas do que te escrevo, queria que simplesmente as vivessem, lendo com o coração, aí sim, conseguiriam saber de onde começou este texto aqui, e todos os outros... E onde começou, afinal, esta mania de juntar palavras e transbordar olhos, isso que por ai chamam de poesia...



Eu queria só bem querer... E te querer...

quinta-feira, setembro 09, 2010

sobre meninos e meninas III

(sequência não oficial)


E eu que apenas arrisco minhas frases sem rima para tentar descrever um sonho, eu te digo com toda a certeza, menino: o que eu entendo das coisas do amor, foram tuas linhas retas que me ensinaram.
E o menino e a nuvem eram saudade demais para caber no coração da minha menina, ela queria era poder reescrever as últimas linhas daquele menino de palavras errantes e contar que todos os beijos só faziam sentido se aqueles olhos a iluminassem quando suas bocas se soltassem; de todas as paixões que aqueles poetas tentaram escrever, nenhuma tinha o fogo e a paixão que só o menino conseguiu sonhar; as lâminas da minha menina após cortar distâncias se negam a cortar este sonho pela metade. E eu que nem sei declamar as poesias que o menino-sonho merece ouvir, tampouco consigo segurar as lembranças e torná-las reais, acabo por me confundir com minha menina e abraço os versos antigos e choro a distância entre a nuvem e a cerejeira desfolhada. E a menina só queria dar um pulo bem alto para alcançar aquela nuvem e desviar a atenção do menino das estrelas que ele pescava e mostrar que ela ama é aquele menino sonhador, menino criador.
E agora eu só repito pra ti, menino, o que já disseste para sua menina: o impossível não existe pra quem sonha, mesmo para o coração que chora uma impossibilidade, mesmo para mim que uso das tuas palavras para te explicar o que tu mesmo me ensinou: final feliz aqui rima com amor.

quarta-feira, julho 14, 2010

uma daquelas alucinações

Porque estás aqui, perto de mim. Talvez em mim, ou talvez seja só uma daquelas alucinações que tentam explicar nos livros e na TV, vá saber! Só consigo saber que me olha, me olha sim! Mas quando eu viro para trás para te olhar os olhos, tu te vira, te esconde... E eu me ponho a acreditar na tal da alucinação.

Por outras tantas vezes que estou deitada, olhos bem fechados, quase fazendo minhas pálpebras brigarem entre si. E eu te sinto aqui. Ah, sinto sim! Minha mão que ficou fora das cobertas e eu nem percebi... Que tola tu chamaria a mim, minha mão está quente porque a tua está aqui. Assim eu acredito que estás em mim.


E tem também aqueles dias, que toda espera atende por ansiedade e que qualquer ligação tem um só remetente - ao menos eu prefiro acreditar assim. E fico pronta para te encontrar no sofá, a me questionar - mas veja só, preciso trabalhar! aaaah, Nesses dias, pobre de mim! É justamente quando tenho certeza que estás aqui.

E tem aqueles dias em que nem os dias dão jeito - ah, tem sim! Dias que eu só te preciso, estando aqui, estando em mim... Ou até mesmo nas tais alucinações que eu não entendo muito bem, mas que também existem sim.

domingo, junho 13, 2010

Primeiro

E de todas as sensações a de toque era a mais inebriante, certeira e semi-mortal. Daquelas que te fazem planejar o passo-a-passo, a troca de olhares e cada palavra a ser dita... Daquelas que te prendem e não te fazem querer deixar o tempo passar, nem que seja preciso quebrar o relógio.. E principalmente que te fazem perder a noção de tempo-espaço quando se acaba. O chão se esvai. Ficam as nuvens, cada vez mais distantes.. Se afastando dos teus olhos, dos meus desejos... Daquelas noites em que fomos você e eu, sem destino, sem que ninguém soubesse nosso endereço. Apenas eu e você, eu me alimentando de teus beijos, você se alimentando de cada um dos meus poros, que te respiram, que te seguram em mim. 


Transformar as horas contadas em uma vida infinita.. De paixões e descobertas... Sempre ali, a te mirar, de perto, como se fosse sempre o primeiro amanhecer... Sem deixar que o pôr-do-sol anterior se vá... Revivendo o primeiro toque. Aquele que mais ansiei. E se for para pedir que algo de você fique em mim, que sejam as melhores memórias, daquelas vivas e cheias de cor, todas que puderem existir na paleta do mais magistral artista, pois eu me recordar de você me traz a certeza do momento em que você me fez tua... E me provou que era meu.

quarta-feira, junho 02, 2010

Reticente

Porque era bem fácil pegar papel e caneta e discorrer sobre teus olhos, se eles me miravam. Também era de tamanha sensação as palavras que escorriam por entre meus dedos, em tinta. Papel manchado de desejos, longos cafés deliberados madrugada adentro em duetos com voz-violão. Suas palavras, suas marcas, intacto em meu corpo, você, voando em meus pensamentos feito a nuvem mais próxima, que quase pode ser tocada. Seus verdes, já tão bem próximos, me fazendo ansiar pelo segundo anterior e novamente o anterior. Para que aquele instante nunca findasse.

No solstício eu entoei refrões que outrora te dediquei em notas, partituras e cartas rasgadas antes de serem postadas. Dos meus rabiscos inconscientes eu te desenhei segurando minha mão, forte e implacável, de forma que através de retas assimétricas era possível ver minhas veias pulsando num ritmo de batimentos descontrolados, semi imorais. Das palavras soltas em torno de um texto comportado extraía-se toda a espera transmutada em urgências, em meu corpo clamando por tuas mãos e meus cabelos aguardando seu desembaraço.

Dos versos já tão reciclados, mensurava-se o ardor, amor, excesso de vigor que me repercutia, invadindo meus hemisférios e me possuindo como lote indefinido. E meus verbos se predispunham de forma a te ter presente, a te ter reticente e, te fazer meu gerúndio enquanto o meu estigma for traduzido em ânsia tua. Da tua boca fazer meu porto, dos teus braços e pernas indómitos, fazer meu futuro, meu prazer insigne. Alastrando feito chama com efeitos psicodistrópticos em minha mente, que agora só faz repetir as mesmas cenas do seu rosto colado no meu, da sua boca percorrendo a minha - que eu brevemente espiei - e do momento em que aqui chegara. Indefinido. Eternizado.

quarta-feira, maio 26, 2010

fotografia

Te quero tão bem e tão intenso - murmurrara em desalinho.

 E aquelas foram as últimas palavras de que se tinha lembrança viva, fora isso ficaram as imagens, já guardadas em porta-retratos. Onde ela passava horas olhando e se perdendo no tempo... Olhando e revivendo.

 E ele já nem sabia mais como narrar toda aquela euforia que chegava em sons de silêncio, em risos de ansiedade e palavras de esperança para um futuro de tempo incógnito. Palavras raras, sentimentos abundantes. Para ela, soavam perfeitas, na medida que seus ouvidos precisavam e do tamanho que seu coração poderia guardar. Como a peça do quebra-cabeça que tanto se procura e se encontra num momento inexato.


 E era sempre assim, as saudades vinham, misturando-se com os desejos e lembranças estáticas espalhadas pelo quarto, sala, mente e corpo enfim. E nesse mix dedelicadeza e desejos, corrosivos e revitalizantes. Antítese. Opostos que se reconstroem, que não se atraem, se completam. Se reinventam. Se alimentam. Tornando-se uma coisa só. Unidade, sem vaidade, com reciprocidade. Eternidade.

quarta-feira, maio 12, 2010

Parágrafos...

E só de pensar o coração parava. Parava sim, senhor! Era tomado por uma força tão intrigantemente amistosa e desesperadora que criava uma antítese... Dessas que dá gosto de desvendar, de se afundar, recriar. Viver enquanto se sonha... A mais bela harmonia faz coro aos meus desejos antes de dormir... E todas as vezes que eu fecho os olhos, é você que me vem, doce e intrigante, como aquela tarde em que planejamos a eternidade, aquele momento em que o que era tão improvável passara a ser minha realidade. E o que será daqui a duas horas eu já nem sei mais... Vivo do aroma que se instalara em mim, daquela voz se declarando, estarrecido com a discrepância que a vida forma, que a vida nos toma. Mas não te vejo partir, te vejo chegar para o almoço como em todos os dias, com meu semblante de saudade no aguardo, com meus mistérios prontos para serem revelados, um a um, lentamente, discretamente... Irrevogavelmente.

Faça-se mar do que outrora fora apenas gargalhadas em meio a olhos marejados, marejados dessa alegria que me toma e eu nem sei explicar de onde vem, como se transmuta e me envolve, me faz som, me faz estação. E os desacordos de ainda pouco vão além, somem, se perdem em meio a um vendaval de novas sensações, futuras percepções. E no momento que você me tocou, eu soube, soube sim, soube imediatamente... E esse imediato nos indica o epicentro, drasticamente mágico. E enquanto eu desenho esses passos recém-estruturados eu me deparo com o céu, me deparo com as cores e até mesmo alguns sabores, como o da sua boca que me chama e me espera... Como o sabor do seu abraço, que me envolve, que me reintegra e me faz querer mais, me faz querer cada parte de você para mim, em mim. Me faz querer continuar a escrever os parágrafos dessa história que promete não ter fim.

sábado, maio 08, 2010

sobre sonhos e utopias

Quisera eu poder transformar em óbvio o que sempre fora utópico... Pudera eu tornar meu Rio afluente do teu Rio, assim, unidos, apenas um, desejando a cada sorriso deixado sobre a mesa, um sorriso desprendido em meu olhar. Chego e sussurro em seu ouvido os planos que tenho para o dia que o sonho se tornar uma praça bonita e florida, como a primavera... Como os seus olhos que me vêem singela, como o grito que meu batimento reprime.. Mas que reverbera por cada milímetro meu. E no momento em que o coração apertar e a razão gritar no ouvido; me fizer acordar, que seja para adiantar o tempo do sonho ser uma lembrança, que trará mais saudade... Que fará do meu príncipe personagem real; Figura surreal. Com todos as eiras e beiras de um menino que ama, menino errante de coração pulsante.

E quando o utópico fizer esquecer a possibilidade do óbvio, só lembre da minha voz ao telefone, meio falha, meio aliviada enquanto você guiava por novos caminhos e deliberadamente parou para me acompanhar no meu sonho viajante... Meu sonho que viaja para te encontrar, que te busca em cada trecho, cada música que toca através destas notas em ondas sonoras, ondas de sentimento e euforia... E eu, essa menina que busca o verde que completa meu olhar cortante, seu olhar que se aperta quando vê o sol, eu só te digo, sonho: Você deixou de ser apenas parágrafo para virar história e essa história, quem assina sou eu... E eu te faço me encontrar, te faço me tocar e me viver, me percorrer, me buscar... Vem, corre... A luz dos meus olhos espera pelos teus.

sexta-feira, março 26, 2010

Intensidade

Ao som de memórias recentes, eu não pude deixar de sentir o sol que ardia lá fora. Meus cabelos quentes e minha pele em ardorosa harmonia fazem coro às flautas e pratos tão ao fundo de bonita - e melodiosa - voz. Minhas lembranças, agora mais distantes, só me trazem você e seus traços marcantes, como grafite marcado em parede de sentimentos, como poesias recitadas em tardes inesperadas. Como uma declaração-não-declarada. Buscar resultados em linhas de números indecifráveis, tirar melodia de notas distorcidas e tentar resgatar amor de um coração que sangra. Passos não calculados, momentos equivocados... Intensamente esperados.

segunda-feira, março 08, 2010

Gangorra

E a vida estava sendo feito gangorra, os altos e baixos que acometiam e tomavam conta do seu dia-a-dia não eram humanos, tampouco surreais. Fechava os olhos em busca de algum chão, algum ar... Mas tudo em seu redor havia se rarefeito. Resolveu então seguir a dança que a pista lhe insinuava e entre os passos não ensaiados encontrou um olhar. Sorridente e inocente, mas que escondia toda uma insinuação. Refez a música de sua história, cantarolou aquela sublime emoção. E enquanto elevava sua dor, descobriu um novo sabor de beijo, intrigantemente viciante e tentador. E agora seu caminho é incerto, mas de fato é saciador.

quarta-feira, fevereiro 17, 2010

Muralha

E após correr e correr e acreditar que de fato estava no caminho certo se deparou com uma muralha. Grande e obscura, que ocultava um brilho tão grande que queria apenas explodir, mas os tijolos não deixavam. Tentou escalar, gritou para ver se sua voz ecoava até o outro lado e tudo parecia ser em vão. Fechou os olhos e tentou cantar a melodia que outrora fora tema de suas poesias, mas tudo ainda parecia tão vago. Acariciou as lembranças, desejando com todo o seu ser que surtisse efeito naquela muralha fria e implacável. Não houve retorno. Descobriu que apenas o tempo seria capaz de ir derrubando as placas que fazia do seu sentimento ainda mais concreto.

quarta-feira, janeiro 27, 2010

E o meu coração tem dançado um tango... Sapateando a cada nota, cada prosa e cada cena ansiosa.
Ligeiro e fulgáz arrebata minha saudade e traz da vida somente a mocidade. E eu me perco em lembranças.
Tal qual tem sido meus instantes, meu romance, sigo assim, sorrindo calada, emanando toda a vaidade.
Toda a minha verdade, meu amor, beija-flor... Fazendo das nuvens, artifício e do seu sorriso, benefício.
Te tomo, te tenho, te quero, e posso sempre repetir... te amo.

sábado, janeiro 23, 2010

E mais um dia chegava, mais um sol nascia e mais brisas lhe insinuavam o doce amor guardado em seu peito. Ela olhou para o lado e sorriu por tê-lo ali tão perto, tão vivo em seus sonhos por todo esse tempo que passara... E a sintonia era perfeita, os olhares, suspeitos e cada toque fazia do ar rarefeito. Tentaram entender todo esse fenômeno, mas nem as mais antigas escrituras lhe traziam palavras suficientes, fecharam então os olhos e apenas sentiram toda a paz que lhes invadia, toda a felicidade que emanava em cada brilho do olhar, em casa sussurro repleto de declarações... Armações do amor, doce amor, singelo ardor. Sempre vivo o esplendor...

quarta-feira, janeiro 13, 2010

Sonho de verão

Resolvi fazer do verão mais uma nota do meu singelo refrão, peguei cada um dos raios que o sol me lançava e fui colocando uma nota ensaiada. Fiz melodia com as nuvens e das flores de cerejeira radiaste mais um verso, mais um inverso. Quis correr por cima da brisa, querendo alcançar o arco-íris e usá-lo de palco para todo meu teatro, para toda minha cena não-ensaiada, para meus verbos rasgados e sussurros planejados, então encontrei resquícios de sorrisos e planos, lembrei dos meus cadernos empoeirados, onde guardei minha vida, minhas cartas rasgadas e os vestígios de um beijo dilacerado.

Foi então que fechei os olhos e me transportei para mais um sonho de verão, mais uma emoção da estação. Retomei meus versos guardados e ensaiei o bater de asas da borboleta que viera a pousar em meu braço. Acariciei as ondas que emanavam das ondas a bater na praia, perto, singelo, distante, equivocante. Rodopiei um  mix de vontades e lhe puxei pra mim, te fiz vir, me fiz ouvir. Te encontrei... Enquanto você me encontrava.

terça-feira, janeiro 12, 2010

.... tirei o amor para dançar

Tirei o amor para dançar. E que maestria ele tinha para guiar, entre os pra lá e pra cá, um olhar me disparou. Desviei o olhar, para que ele não visse o brilho que subitamente emergia da minha íris, percebi seu sorriso contido no canto da boca, lancei-lhe um olhar tímido e ele baixou a face... Levantei os olhos à procura de minha alma, parecia que só meu corpo estava ali a bailar... Bailei o som da mocidade, lembrei das primaveras de saudade, desenhei conversas, respirei fotografias amareladas...

Segurei o queixo do amor entre meus dedos e lhe dei um beijo na face, vagaroso e atordoador. Senti minha outra mão a ser comprimida entre seus longos dedos... Parei, recuei. Reclinei meu olhos e suspirei baixo, calado... Senti uma brisa sacudir minhas madeixas, era sua mão, a me puxar para ele, para seu peito terno. E ali eu me entreguei. Cansei de procurar caminhos e fugir nas bifurcações, ali eu me entreguei e me fiz dele.
Foi então que eu abandonei minha túnica da saudade.

sábado, dezembro 19, 2009

lembrança, verbos e anis

 De repente da poesia fez-se refrão. Suas rimas contagiantes e versos instigantes a envolver, derreter os ouvidos do cidadão apaixonado. Enquanto ligava seu rádio à pilhas em qualquer estação descobriu o verão e delirou de A a Z as palavras de bem-querer. Fez com que o distante estivesse diante, e o doloroso, caloroso. Transformou águas em aquarelas, brisas em sua tela e pintou seu viver, pintou o autor daquela música, aquela outrora poesia, nuvem. Dedilhou sensações, descobriu percepções, de cores e sabores. Olhou através de uma janela e viu o arco-íris de atos e fatos, quis ser ontem para eternizar cada memória, fez do pranto nota melodiosa, transformando em mar todo chão que pisara, banhou-se dos perfumes e cores de cada jardim que encontrara; fazendo o amanhã ser daqui a pouco.

 Enquanto a música lhe fazia homem, sua bela moça avistou, correndo ao seu encontro com caracóis e girassóis, num sobressalto ela lhe encarou, buscando entender motivos daqueles anis que ele lhe estendia, transformando sua vida em um licor de emoções, refrões. Entendeu que daquele sorriso só poderiam emanar flores e rumores. Ruminou a idéia de em um par estar, apaixonada por um olhar que não entendia o que lhe transmitia, mas lhe prendia. De papel ela fez seu coração e lhe entregou, deixando além de sua lembrança, seu verbo. Ele entoou uma música perdida em seus devaneios e esperou que ela entendesse. Ela já não podia lhe escutar.

quarta-feira, dezembro 16, 2009

Discos mudos

E aquele retrato ainda está aceso aqui na minha lembrança, todos os sons, risos e mares que nos consumiam, que nos tomavam e nos faziam ser aqui e ali. Lembrando dos momentos em que você e eu nos descobrimos apenas um, um mar de saudade e um luar repleto de palavras que me faziam delirar. Recuperei o gosto da sua boca na minha, a me falar em sons mudos todos os seus sentimentos, enquanto que eu apenas conseguia fechar os olhos e me fazer sua, completamente entregue a seus sorrisos e nossos abraços. Agora fica a saudade, saudade dessas lembranças, saudade do seu cheiro que ainda está em mim. Olhando para meu travesseiro consigo me lembrar de você deitado, com os olhos semicerrados a me fitar, a me devorar. Fazendo-me ter certeza de que mesmo na vastidão do universo, nada está propenso a ser além, além dos nossos amores e nossas canções.

Os vultos da madrugada testemunham cada sussuro de uma conversa travada à meia luz, guardando todas as sensações de um dia de mar, um mar de querer, quereres em dualidade. Te procurei nas páginas do meu livro, enquanto meu telefone não me trazia de volta sua voz rouca após aquele whisky que tomara para afundar a melancolia da distância causada pela brisa que partira meu coração em fragmentos de ardor. Enquanto aguardava a escuridão tomar meu corpo e me adormecer, peguei meu livro manchado e te procurei nas páginas amassadas, retratos de aluguel. Olhei para os discos de bossa nova e não pude deixar de tocá-los, mas só meus ouvidos não os ouvia, ecoando sempre aquela imensidão de vazio, que apenas sua ausência é capaz de gerar.

Fechei os olhos mais uma vez e te idealizei ali, a me segurar entre mãos e pernas. Me perdi enquanto explorava seus devaneios, sentindo sua urgência, lhe sussurei a falta que me fez e vi seus lábios se moverem em resposta aos meus cabelos em seu rosto, mas não conseguia ouví-los, pareciam distantes, ecos mudos. Mas você ainda estava ali e eu conseguia lhe tocar, resolvi então viver naquele abraço e me fazer sua. Perdi o fôlego quando consegui enfim ouvir um som e então, abri os olhos e vi o sol.

sábado, dezembro 05, 2009

Prosa Presa

Prenderam a Prosa, alegando que ela falava por demais, contando casos e acasos do menino e do beija-flor. Entre este e aquele verbo, destacava-se o amor; vítima da Prosa, com seu medo da dor. Mas a Prosa era menina direita, e era com apreço que contava o tempo, fazia vidas em aquarela e cantava o esquecimento. Jamais deixava para o segundo tempo o que o tempo agora lhe pedia, dançava no ritmo da saudade e lembrava dos tempos de mocidade: Suas primeiras aventuras, seu primeiro verbo narrado e até mesmo aquele que fora musicado. Lembrou de notas do samba e pediu mais uma vez aquela melodia; fora caça e caçador do mesmo objeto, cabendo sempre na mesma frase, vivendo a mesma realidade. Num golpe magistral a Poesia tomara seu tino, começara a versar seu riso. E lá elas se misturaram fazendo poesia cantada, fazendo verso recitado, até a Poesia tomar seu lugar e as pessoas deslumbrar. A Prosa queria mesmo só ser lembrada, fazer das suas letras, carta marcada. E enquanto buscava espaço entre uma estrofe e alguns milhos de pipoca estourada que percebeu como lhe fazia falta todo o seu dueto de domingo e segunda-feira. Então resolveu voltar, resolveu seu verso bailar. E nesse tango de nostalgia e reconquista se deparou com os mistérios de escrever contínuo enquanto as palavras pareciam querer pular para o próximo verso. Com esmero conseguiu na Poesia uma cantada passar, começando a lhe conquistar, sabendo que era apenas um artifício para tomar de volta seu lugar. As leis não lhe importava, o certo-e-errado perdeu-se nos ladrilhos daquela ruela. Até descobrir que aos olhos do Poeta, a Poesia transcendia e o amor era incondicional. Percebeu que não deixara de existir, apenas ficara presa na cegueira do Poeta...

domingo, novembro 29, 2009

Eco mudo

Ela lhe convidou para brincar de ardor, querendo fazê-lo transitar entre esta e aquela dimensão.
Ele se entregou. Querendo conduzí-la dentre o fogo que ali ardia, tocá-la por inteiro com seus dedos fumegantes de calor.
Ela conseguia lhe dominar, certa e determinada em cada ação, querendo dele entrega em toda alucinação.
Ele tinha ciência daqueles braços aparentemente frágeis a lhe entrelaçar e daquela suave boca a lhe marcar.
Chegava o momento de total embaraço, total era o desejo que eles se confudiam, sem saber explicar onde cada braço começava e onde cada perna teimava em terminar, desejando continuar a viver dois e desesperando-se para completar-se.
E num momento que não souberam explicar, mar e céu tornaram-se um. Um desejo, um eco mudo, um só querer, um grito de silêncio. Um sentimento.

quinta-feira, novembro 19, 2009

Só enquanto eu...

E naquela manhã, ela acordou com o hálito quente dele na memória e ao esticar os braços para entrelaçá-lo, descobriu-se por abraçar o vazio. É, fora mais um sonho.

Quisera ela ter eloqüência suficiente para descrever o ímpeto que a fez pegar papel e lápis tão logo pôs os pés no chão, resolveu justificar pelo amor e saudade, na falta de palavras mais amplas. Mas ainda as achava tão pobres ao lado do tsunami de emoções que ele lhe proporcionava... Descobriu como era bom encostar no travesseiro e lembrar que apesar do frio lá fora, o coração estava aquecido. Chegava a criar uma antítese. Mas ela já havia se declarado fã delas mesmo, então se viu a continuar vivendo esse maremoto ora óbvio, ora utópico e a tomá-lo nos braços para viverem o óbvio utópico.

E num momento de romantismo exasperado, só conseguiu permitir que o coração usasse suas mãos para gritar o que estava sentindo... Dedicou-lhe seus versos mais modestos, fê-lo acreditar que só enquanto mantivesse a sanidade e respondesse por si; só enquanto pudesse chamar isso aqui de Terra e enquanto Friedrich Nietzsche pudesse ser chamado de filósofo; só enquanto o real ainda fosse utopia e a utopia não tivesse nada de fantasia; só enquanto respirasse, lembraria dele.


E assim tem sido.